A Rússia um pais igualitário?

(ver https://twitter.com/MavkaSlavka/status/1676195964737191937)
A Rússia segundo a propaganda nacional é um país igualitário, no qual as elites, e especialmente o presidente Putin, trabalham para o bem de todos. Esta propaganda não resiste aos fatos e à história assim como apresenta chocantes semelhanças com o modo de funcionar das elites soviéticas.
A Rússia teve desde os Tsars umas elites centralizadas em Moscovo e São Petersburgo. São Petersburgo tornou-se uma típica capital imperial europeia com a sua corte e suas elites. A partir do século XIX Moscovo tornou-se uma capital centralizadora, reforçando o seu papel durante o comunismo. Ainda hoje as duas cidades são as incubadoras das elites. As élites se distinguem dos plebeus. Foram da aristocracia, e desprezavam a gente pequena. As políticas públicas – diríamos hoje – favoreciam largamente as elites e seus aliados
No tempo da URSS, as elites eram do partido comunista, intra muros. O processo de cooptação era lento e sujeito a controle e armadilhas. As artimanhas eram numerosas e uma das grandes inovações russas foi o gulag, destino forçado de muitos intelectuais e escritores recalcitrantes ou apenas com pouca sorte.
A lógica é de uma sociedade fechada, de controle e vigilância (aqui Foucault e Deleuze tocam-se, se rejoignent). A desconfiança, a denúncia, a repressão e a violência são o pão cotidiano dos russos e dos soviéticos. A ironia da URSS era de criar e desenvolver-se sobre os soviets (significando comunidades), destruindo as bases da comunidade, a confiança e a gratidão de viver juntos.
As elites atuais, o sistema político, são conservadores, mas devem muito à brutalidade da URSS, nomeadamente ao KGB e ao Exército Vermelho e a reconversão oportunista das jovens elites que transitaram dos anos 80 para o início do século XXI.
Nas três épocas as desigualdades eram muito fortes, no período imperial, com umas elites a viver luxuosamente nas duas capitais, no período comunista com pequena garantia de igualdade que mascarava desigualdades fortes entre cidades e zonas rurais, Rússia e outras zonas orientais, de género e até de classes. Reapareciam novas classes relacionadas com os tipos de trabalhos, as categorias sociais e o fato de ser ou não membro do partido.
Depois da queda do comunismo temos umas novas elites, que surgiram do antigo KGB, meios mafiosos, exército, administração, e empresários. Parte da ascensão de elites num sistema centralizado e fechado fez-se em meios privilegiados como as universidades, os clubes, o mundo dos negócios.
O resultado é um aumento substancial das desigualdades sociais e económicas na Rússia, uma crise demográfica (que está na base desta guerra da Ucrânia) e uma crise social e económica. A atividade económica não se baseou em produção nacional, fora o leite e as armas, mas em extração de recursos naturais.
Apesar da Rússia ter escolas de referência, para as elites e para uma parte reduzida da população que cobre uma fração da classe média, a educação para muitos é insuficiente e, sem a sua conclusão, promete cidadãos russos a uma vida terrível pela frente.
Desde a crise do Covid, o número de oligarcas e os mais ricos têm aumentado mais na Rússia do que em qualquer país do mundo, passando de 23 % do PIB para 24 %. Algo que ultrapassa qualquer outro país do mundo, nomeadamente a Suécia, a China, a Índia, o Brasil e os Estados Unidos.
Na Rússia, os 500 mais ricos controlam mais riqueza do que os 98,9 % dos mais pobres, o que é quase toda a população do país. Na miséria e na ignorância, grassa um poder autocrático, como há muitos.
Isto também pode ser uma lição para as organizações em que os recursos são concentrados em poucos em que os Directores controlam as promoções e as possibilidades de progredir. O poder corrupto está na Rússia como está num local ao virar a esquina. O assédio é uma ferramenta de gestão bem real, que atua de maneira silenciosa. O país em termos de processos humanos e sociais, para não dizer políticos, não evoluiu tanto, ou melhor dizer, sofreu mudanças estagnantes que dificultam as mudanças vindouras. A cueldade é ai subjetiva e objetiva, sempre muito real e presente no cotidiano.
Não sejam tolos. Olhem e atuem à vossa volta.
Putler's reign has been "very good" for the top 1% of ruZZIans… #RussiaIsAMafiaState pic.twitter.com/jMa2bxQA3l
— Mavka Slavka 🧜♀️🌻 (@MavkaSlavka) July 4, 2023
OpenEdition vous propose de citer ce billet de la manière suivante :
Marc Jacquinet (9 février 2023). A Rússia um pais igualitário? Critique du management. Consulté le 7 octobre 2026 à l’adresse https://doi.org/10.58079/ne3s

